Precarização do trabalho e conservadorismo reacionário

18/10/2018 20:44:18

Paula Sirelli


Vivemos um cenário de flexibilização, desregulamentação e precarização do trabalho, que traz consigo uma séria de inseguranças: instabilidade no emprego e nos salários, falta de perspectiva de futuro, desmantalemanto das instituições públicas que garantam alguma segurança em caso de necessidades (Sistema Único de Saúde, Previdência Social pública, legislação trabalhista que ampara o trabalhador), além de um sentimento de insegurança generalizada devido ao aumento da violência. Soma-se a isso a incerteza econômica e política, fortalecidos pós golpe contra Dilma Rousseff em 2016. Neste cenário, o Brasil ainda convive com o desemprego de 13 milhões de pessoas, queda de renda e aumento da pobreza, da fome e miséria. Os sindicatos e organismos de representação dos trabalhadores vão perdendo força e legitimidade entre esta classe, enfraquecendo drasticamente as organizações classistas e partidárias.

Há uma sensação generalizada de insegurança, que rebate nas condições materiais, mas também subjetivas dos sujeitos. A precarização do trabalho expraia-se para a vida, tomando conta não apenas da dimensão econômica, mas também política, social, cultural. É o que alguns autores chamam de precarização social, que revela uma dupla institucionalização da instabilidade: precarização econômica (das estruturas produtivas e salariais) e precarização da proteção social (transformações das legislações relativas aos direitos do trabalho, das empresas e das situações externas ao trabalho). Esta não é uma realidade que afeta apenas ao Brasil, embora aqui tenhamos particularidades, mas é estratégia global do capitalismo.

Um elemento primordial da globalização contemporânea é o neoliberalismo, que acarreta com ele a ausência do Estado na garantia dos direitos sociais e trabalhistas. O Estado se ausenta do seu lugar de legislar o laço entre as pessoas e as intuições, de garantir a um mínimo de segurança – dando lugar então, a uma busca por saídas individuais.

Neste cenário, alguns sujeitos coletivos se fortalecem e colocam na cena pública questões latentes e reprimidas: há um crescimento e fortalecimento de movimentos pela ampliação dos direitos das mulheres, da população LGBT e dos negros, por exemplo. A crise, estrutural, parte da impossibilidade do capitalismo se reerguer, busca seus culpados. E os encontra entre estes sujeitos que se fortalecem: negros, mulheres (em especial o movimento feminista), LGBTs, migrantes, “cotistas” e “minorias” em geral. O que se cria, na verdade, são grupos para atacar. Há um reconhecimento dos sujeitos, de auto identificação entre eles – encontra-se um inimigo comum, mas também pessoas que tem o mesmo “inimigo” – que pode gerar uma sensação de pertencimento, um grupo de identificação, que dentro dele os sujeitos se sentem reconhecidos e protegidos.

A precarização do trabalho, e junto com ela a sensação constante de insegurança, tem consequências e vem com um clamor por respostas imediatas, que possibilitem aos sujeitos reconstruir uma falsa sensação de segurança. Neste cenário, de hegemonia financeira e esgarçamento das instituições públicas, observamos uma contra ofensiva reacionária – é aí que esta resposta é encontrada. Mais fácil do que buscar as razões que levam à crise, à precarização, ao desemprego, ao acirramento da violência e a insegurança social generalizada, e enfrenta-la, é encontrar um salvador que aponta um inimigo aparente, simples de combater, com respostas prontas e fáceis, porém ineficientes, por não irem a raiz do problema.

Nossa tarefa, nas urnas, mas não apenas nelas, é combater o fascismo. Não é o conservadorismo que vai eliminar a insegurança – ao contrário, vai intensifica-la, não só por espalhar um medo social generalizado, por caçar liberdades individuais duramente conquistadas, mas por radicalizar a precarização. Observamos um cenário político de austeridade fiscal, ataque aos direitos dos trabalhadores, de apoio ao congelamento do corte de gastos públicos, de flexibilização da legislação trabalhista, de apoio a terceirização generalizada. Estas medidas não estão gerando e não vão gerar emprego e renda. Elas só aumentam a insegurança e a instabilidade do trabalhador, em nome de manter uma (falsa) ordem. Cabe a nós pensar quem vai lucrar com esta onda conservadora. E a história já nos mostrou: não seremos nós, classe trabalhadora.

Diante da insegurança, corremos o risco de recorrer a estratégias que já foram utilizadas – como o fortalecimento da “família tradicional” (que nega a composição feminina de mais de 50% das famílias brasileiras, mostrando a força das mulheres desses país, que sozinhas sustentam a casa e cuidam dos filhos), do machismo ou mesmo do fascismo. É mais fácil, sem dúvida - não tem o trabalho da invenção. Ou podemos buscar outras respostas, coletivas, articuladas socialmente e referenciadas na democracia. Mas para essa (re)construção, precisamos ousar sonhar.

 
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