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Balanço do 2º Trimestre da Petrobras: melhora do cenário externo e reversão estratégica do refino

Por Rodrigo Leão e Eduardo Costa Pinto

A melhora acima do esperado se relacionou basicamente a dois fatores: o setor de exploração e produção e reversão abrupta da política do refino.

A Petrobras divulgou hoje (03/08/2018), os resultados consolidados da estatal do segundo trimestre de 2018. Instituições do mercado financeiro estimaram que o lucro líquido da companhia ficaria entre R$ 6,5 e R$ 7,5 bilhões, no entanto, o resultado foi acima do esperado, atingindo R$ 10,1 bilhões no segundo trimestre deste ano. A melhora acima do esperado se relacionou basicamente a dois fatores: (i) melhora das condições do setor de exploração e produção (E&P), com elevação do preço do barril internacional e queda dos custos de extração; e (ii) reversão abrupta da política do refino (deslocamento das importações para terceiros e redução da carga processada das refinarias), que vinha sendo praticada até maio de 2018 quando eclodiu as greves de caminhoneiros e petroleiros.

Refinaria Petrobras. Foto: Divulgação.

Em relação ao E&P, a sua receita de vendas aumentou 19% em relação ao trimestre anterior. Esse aumento foi decorrente basicamente do aumento de 24% do preço do barril internacional do petróleo (Brent) associado à desvalorização cambial – que saltou de R$ 216,5 para R$ 268,2.


Cabe ressaltar que mesmo com esse resultado positivo das receitas, associado à redução de 7% do custo de extração de US$ 11,5 para US$ 10,7 relativos basicamente à excelente produtividade do pré-sal, o lucro líquido do segmento cresceu apenas 1%. Isso pode ser explicado pelas maiores despesas como poços secos e com a base de comparação dos lucros do 1º trimestre de 2018 que foram influenciadas por receitas não recorrentes (venda de ativos).


Além disso, esse resultado no E&P, aquém do esperado, reflete, em termos estruturais, uma equivocada estratégia de desinvestimentos da companhia, sobretudo na Bacia de Campos. Com isso, apesar da trajetória crescente da produção do pré-sal desde sua descoberta, a produção da Petrobras caiu neste trimestre em relação ao anterior, em boa medida, pela venda de blocos de produção. Um exemplo desse processo foi a venda de 25% de Carcará para a Equinor (ex-Statoil) por US$ 2,4 bilhões que, embora tenha internalizado recursos imediatos para a companhia, transferiu definitivamente uma parcela da produção da Bacia de Campos para a empresa norueguesa. Não por acaso, a produção da Equinor cresceu 72% entre março e junho de 2018, colocando-a como a segunda maior produção do país.


Apesar do impacto positivo do E&P, sem dúvida, a mudança mais abrupta dos resultados deste trimestre ocorreu no abastecimento, onde os lucros cresceram 72% em relação ao trimestre anterior, e são resultados de uma mudança na estratégia do refino.


Primeiro, observou-se um aumento significativo do fator de utilização do parque de refino da Petrobras que saiu de 72% para 81% entre os dois últimos trimestres sem que isso significasse aumento de custos – como argumento pela Petrobras para justificar a enorme capacidade ociosa durante a greve dos caminhoneiros –, pelo contrário, estes caíram de US$ 2,96 para US$ 2,36.


Segundo, notou-se um forte crescimento das importações de derivados (97%), o que significa que a Petrobras tem buscado reassumir o controle da distribuição de derivados no mercado interno, deslocando as importadoras.


Como efeito dessas duas medidas, o volume de vendas cresceu 9% (subiu de 1.648 para 1.791 mil barris/dia), ampliando tanto o market-share quanto a margem da companhia no abastecimento. Essa reversão estratégica no refino reforça a avaliação dos pesquisadores do Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis Zé Eduardo Dutra (Ineep) sobre o equívoco da política de refino da Petrobras.


Em recente texto publicado nesta mesma CartaCapital, lembramos que a opção da Petrobras vinha subutilizando “suas refinarias e favorecendo a entrada dos importadores. Em 2013, a Petrobras utilizava praticamente 100% do seu parque de refino e, em 2017, esse percentual caiu para 76%. Com isso, uma parcela substancial do mercado interno [vinha sendo] suprida com importações. Com a enxurrada de importações (que já detém por 24% do mercado interno), a Petrobras ficava refém de uma política de preço atrelada ao mercado externo. (...) e abdicava de sua posição de price maker (formador de preço) – que lhe possibilitava mantém maiores margens – para adotar uma posição de price taker (tomador de preço)”.


Além disso, desmistifica as justificativas da gestão da Petrobras de que a redução do nível de utilização das refinarias estaria relacionada a uma questão técnica associada à diferença entre as capacidades de destilação e das unidades de conversão (craqueamento e coqueamento). Quanto maior essa diferença, menores os ganhos com a ampliação do refino. Esse elemento técnico das refinarias existe, mas ele, per si, não explicava o nível de utilização total do parque de refino da Petrobras no primeiro trimestre de 2018, ainda menos das refinarias que foram colocadas à venda pela empresa. O Ineep recentemente mostrou que em algumas refinarias, como a Refinaria Landulpho Alves-Mataripe (RLAM) na Bahia, as unidades de conversão não estavam com nível de utilização similar às de destilação.


Os dados são incontestáveis de que houve uma revisão da estratégia anterior e os resultados refletem o aumento do controle do mercado de abastecimento que é central para a geração de caixa da Petrobras.


Ou seja, existia um equívoco entre o mix da política de preços da Petrobras (variações nos preços dos derivados nas refinarias e alinhamento internacional) e a estratégia para o refino (variações na quantidade processada nas refinarias) que não maximizava a geração de caixa, criando artificialmente capacidade ociosa.


Das duas uma: ou a Petrobras estava adotando uma estratégia sui generis de não competir e não participar pelo seu mercado ou estava ocorrendo um erro gerencial de alocação ineficiente dos recursos produtivos da empresa.


Por fim, deve-se ressaltar que, novamente já alertado pelo Ineep, a estratégia para a gestão da dívida tem sido orientada, cada vez mais, para um alongamento dos passivos do que para uma redução draconiana do endividamento. Neste trimestre, as dívidas foram reduzidas em apenas 2% em relação ao anterior (saiu de R$ 360,7 para R$ 352,9 bilhões), no entanto, houve uma clara realocação temporal das mesmas. As dívidas com vencimento em 2019, por exemplo, foram diminuídas em 53% ao passo que aquelas com vencimento depois de 2023 cresceram 23%.


Esses resultados operacionais e financeiros evidenciam uma melhora do cenário externo para a Petrobras (aumento do preço do Brent), a importância do refino para a geração de caixa da empresa e melhora no perfil da dívida. Nesse novo contexto, qual seria o sentido de continuar com uma estratégia de desalavancagem tão acelerada que implicaria em continuar vendendo ativos, inclusive campos do pré-sal e refinarias, que são fundamentais para geração de caixa presente e futura da Petrobras, como observado nos resultados no balanço desse trimestre.

Artigo publicado na Carta Capital.


#RodrigoLeão #EduardoCostaPinto #CartaCapital

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