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O futuro do Oriente Médio

Por José Luís Fiori

É possível que as lutas internas e suas disputas religiosas crie um sistema regional, acima das antigas reivindicações do nacionalismo local.

Desde o fim da guerra, os governos e as grandes corporações petrolíferas tinham identificado o potencial energético do Oriente Médio e haviam iniciado sua exploração, ainda que de forma incipiente, no Irã, Iraque e Arábia Saudita.


Mas foi em 1945, a caminho da reunião de Ialta, que o presidente norte-americano Franklin D. Roosevelt, reuniu-se com o rei Ibn Saud, da Arábia Saudita, a bordo do navio USS Quinci, e deu os primeiros passos de uma das alianças estratégicas mais importantes dos Estados Unidos, em toda a segunda metade do século XX.


A partir daquele momento, a Arábia Saudita também se tornou um dos pontos de convergência mais produtivos do mundo, entre os interesses públicos e privados, comerciais e estratégicos, dos Estados Unidos.


Logo depois do fim da guerra, os EUA apoiaram a criação de Israel, em 1948, e orquestraram, juntamente com a Grã-Bretanha, o golpe de Estado contra o primeiro-ministro nacionalista do Irã, Mohammed Mossadegh, em 1953, e transformaram o país do Xá Reza Pahlavi no terceiro grande pilar de sua tutela geopolítica e militar da região, que passou a ser a principal fornecedora de petróleo do sistema produtivo mundial.


Do ponto de vista estritamente econômico, a “ordem energética” do pós-guerra foi um grande sucesso, garantindo o fornecimento de petróleo abundante e barato para a reconstrução da Europa e para o funcionamento da economia mundial durante todo o período que ficou conhecido como a “época de ouro do capitalismo”, entre 1950 e 1975.


Apesar disso, por trás da tranquilidade da oferta e dos preços, travou-se uma intensa disputa em torno da repartição das receitas do petróleo, entre os países produtores e as grandes corporações privadas.


Em 1973, na “Guerra do Yom Kippur”, a Opep, criada na década anterior, logrou impor um “embargo” bem-sucedido do fornecimento de petróleo aos EUA, Europa Ocidental e Japão, os principais aliados de Israel nessa guerra iniciada pelo Egito e pela Síria.


Independentemente do resultado da própria guerra, esse embargo provocou a primeira grande subida do preço internacional do petróleo depois da Segunda Guerra. O preço do barril quadruplicou e derrubou o “regime energético” da “era de ouro”, baseado no petróleo abundante e barato.


Foi nesse momento que as grandes potências consumidoras criaram a “Agência Internacional do Petróleo”, com o objetivo de coordenar sua política e estratégia frente ao desafio da Opep e de sua defesa dos interesses dos países produtores.

Tropa norte americana atuando no Oriente Médio. Foto: AFP.

Apesar dessas precauções tomadas pelas grandes potências, a Revolução Islâmica do Irã, e o início da guerra entre o Iraque e o Irã, no fim dos anos 1970, início dos 80, provocaram uma nova duplicação do preço do petróleo, só controlado e compensado com a oferta dos novos poços de petróleo do Alasca e do Mar do Norte, na mesma década de 80.


Os EUA perderam um dos seus principais aliados na região, o Irã, que passou a confronta-lo e a Israel de forma crescente. Os norte-americanos tiveram de refazer suas alianças regionais, utilizando-se dos novos países e emirados do Golfo Pérsico criados na década de 70, depois da retirada das últimas tropas britânicas da região.


A nova coalizão, entretanto, não conseguiu impedir a invasão do Kuwait pelas tropas do Iraque, e foi obrigada a liderar a Guerra do Golfo, em 1990 e 1991, que recolocou o Oriente Médio e o Golfo Pérsico no epicentro das “angústias energéticas” da potências ocidentais, depois do fim da Guerra Fria.


No início do século XXI, depois dos atentados de 11 de Setembro, as Guerras do Afeganistão, em 2001, e do Iraque, em 2003, envolveram os EUA e seus aliados da OTAN numa guerra quase contínua que se estende até nossos dias, travada simultaneamente em vários pontos do “Grande Oriente Médio”.


O projeto norte-americano de “conversão” do mundo árabe à democracia e aos valores ocidentais, anunciado pelo presidente George W. Bush em 2004, foi um estrondoso fracasso, mas do ponto de vista estritamente militar os norte-americanos mantiveram sua presença e controle das principais fontes energéticas da região.


Mais recentemente, o sucesso da intervenção militar da Rússia na Guerra da Síria, em 2015, o crescimento da influência regional do Irã, no Iraque e no Líbano, o afastamento progressivo da Turquia de seus antigos aliados da OTAN, e a entrada da China e da Índia no rol dos grandes consumidores mundiais de petróleo, com forte interesse nos poços do Oriente Médio, têm modificado de forma radical o desenho geopolítico e geoeconômico da região, em particular do Golfo Pérsico.


Aliás, é nesse contexto que se deve ler e entender a nova estratégia regional do governo Trump, que abdica de sua antiga posição arbitral entre os principais interesses e conflitos intrarregionais e assume plenamente sua opção pela Arábia Saudita contra o Irã, e por Israel contra os palestinos e seus apoiadores árabes.


O recente aumento do preço do petróleo, inclusive, teve relação com a postura do governo Trump na renovação do acordo nuclear a envolver o Irã. Assim como nos outros episódios, guerras e conflitos entre os EUA e o Oriente Médio estão profundamente relacionados ao petróleo e agora não é diferente.


No longo prazo, é bem possível que as lutas internas da região e suas próprias disputas religiosas apontem na direção da consolidação de um sistema estatal regional, por cima das antigas reivindicações do nacionalismo pan-arábico, e por cima das tendências pan-islâmicas de algumas seitas e grupos de poder regionais, como foi o caso mais recente do Estado ou Emirado Islâmico.


Essa tendência ao fortalecimento de um sistema de soberanias nacionais autônomas e equipotentes dentro do Oriente Médio deverá, no entanto, seguir atropelada e bloqueada por todas as grandes potências do sistema internacional, que seguem considerando que os recursos energéticos da região são um “patrimônio da humanidade”, e fazem parte indissociável de seus interesses estratégicos nacionais.

Artigo publicado na Carta Capital.


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